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DISCURSOS DE DON QUIXOTE
ESMOLA
Alguma coisa está urgindo de dentro de mim. Tem algo se contorcendo em minhas vísceras. A dor e o ódio querem me apossar. Estou vivendo na contra mão de tudo e isso não está me levando a lugar algum, mas nem me importo com isso. Nasci no nada, fui criado na lama, cresci no lodo e me escondi no breu. O desconhecido me atraiu e lá fui. Sem “eira nem beira” encontrei o abismo. Agora diante dele sinto medo. Voltar não posso. Ficar não devo. Seguir pra onde? Nessa altura nem o diabo me aceitaria. Como um trapo humano envolto no perigo, durmo ao relento e a dor da fome e do frio não doem mais que a dor do desprezo. Eu me desprezei. Só dou valor na cachaça que me embriaga e me remete ao mundo dos sonhos. Nesse labirinto em que me encontro, entre a vida e a morte, me afogo nos afagos que a etilidade me propicia. Assim me transformo no super-eu. Dono do meu nariz e do meu mundo. Aqui ninguém se intromete. Eu dito as leis. Domino o que antes me dominava. Enfrento o que quer me destruir. No frio nem penso. Na fome pensarei amanhã. O lixo sempre ali estará. Vim do lixo, me alimento do lixo e no lixo me transformo. Você de mim sente pena. Às vezes me joga uma moeda, me dá um saco de pão duro. Com certeza vê mais valor no que faz do que no que me dá. Joga, não entrega. Espera que na queda, seu donativo faça bastante barulho para que Deus possa ver seu ato misericordioso. Acredita que sua boa ação de hoje vá colocar mais um tijolo em sua casa no céu. Pobre otário! Tão podre quanto eu. Pelo menos sei da minha condição e não me iludo. Embriagado nada me amedronta. A minha hipocrisia ficou para trás, bem longe do que hoje sou. A bebida é meu elixir. Enquanto existir sede, vida terei. Chega! Já falei demais... Minha boca está seca. Sai cachorro! Passa Pantera! Me deixa deitar aí que essa cama de papelão é minha! Cadê minha garrafa? Estou com sede. Um brinde à vida...!!!
Escrito por Armando às 21h18
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ALICIANDO.
E Don Quixote, aquele indigente que faz discursos nas esquinas, cansado da solidão resolve conquistar parceiros nas cachaçadas.
Hei, você! É, você mesmo! Você que está contemplando um vazio de coisas incomensuráveis para alguém da sua estirpe. O que pensa da vida? Que tudo é um mar de rosas? Pode tirar o cavalo da chuva que não é bem assim não! Só porque está de roupa limpa pensa que tem alma pura? Se o cabelo está arrumado a cabeça está feita? Se está com saúde pensa que pode ir para onde quiser? Está totalmente enganado, você tem regras, eu não. Falo o que a cachaça me inspira. Vou aonde e quando quiser. No meu país não existem fronteiras. No meu negócio eu sou patrão. Por mim não tens desprezo, tens inveja.... Eu sou o que todos querem ser. Um animal feroz, faminto e sem compaixão. Estou caminhando para o início. Eu sou a besta que prega, a água que purifica, o fogo que transforma e a terra que irá te engolir. Minha fome é de alma e eu quero a sua. Não adianta fugir, fingir que não me vê. Eu estou na sua consciência a te cobrar na indecisão. Quem mandou acreditar no bem? Somos a essência do mal, estamos aqui para conquistar e colonizar tudo e todos. Que vença o mal maior! Está com medo de mim? Eu não sou o homem do saco, eu sou o saco do homem. Sou o que você nasceu para ser e não acreditou. Agora virou fantoche nas mãos do poder. São eles que mandam em você e você só sabe obedecer. Coma isso, vista isso, faça assim, compre tudo, guarde só para você, finja que ama, interprete uma caridade. Não é isso que sua vida se transformou? Largue tudo, venha para o mal mandar e não obedecer. Esse seu mundo é cheio de regras e tabus. Venha comigo construir um mundo novo. Brinde comigo na cachaça as conquistas do amanhã. Traga consigo somente a vontade de ser vencedor e não um grande nada, um Zé-Mané, um João-Ninguém, um zero à esquerda. Mate essa vida sem nexo e renasça para a indiferença, o desprezo e o poder. Só o que precisa é provar da minha cachaça. Vem beber comigo e se transportar para um paraíso infernal. Para a desavença harmoniosa. Para a luz da ignorância. Para a filosofia do não saber. Da labuta do ócio. Da transformação do ser sonhado. Isso! Beba mais!... Só mais um pouquinho!... Agora vira tudo!... Assim... Bebe... O mundo mudou!...Ele agora é seu!...
Escrito por Armando às 14h05
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Da janela do meu quarto.
Da janela do meu quarto, em meio ao tédio de um domingo chuvoso, olho para fora na esperança que algo aconteça. A respiração na vidraça deixa a visão nublada. Uma silhueta se move em direção à confluência das ruas e esbraveja seu grito de liberdade sob a chuva. É Don Quixote novamente. Dessa vez seus cachorros não lhe acompanham; preferem a segurança e o calor de um abrigo. Sozinho em sua empreitada, com o dedo em riste, como de costume, começa seu discurso:
- Agora que a solidão me acordou eu vou gritar. Gritar para o mundo me ouvir e, quem tiver coragem, me seguir. Mas sejam pacientes com seus passos. Eu sou aquele que foi proibido de amar, justamente eu, que só vivo no amor, estou seguindo meu rumo sozinho. Chuva que cai! Em sua alquimia me torne imune ao desamor! Carrego comigo um coração de pedra para ser lapidado e transformado, através da força bruta do cinzel, num emissário de luz e calor que resplandece em pensamentos vazados que tingem de branco meus cabelos. O frio da tarde não se compara ao frio do sentimento. O tempo sobre paira como uma cúpula e brinca ao nosso redor. Nada faz sentido, nem mesmo a água que corre sobre meus pés tem o poder de lavar minha alma. Alma vazia como um rio sem água, como um cão sem dono, como um olhar no escuro. O escuro da cor, da flor e da dor. O escuro da vida, da arte e do fazer. Venha seguir comigo meus passos sem olhar para trás. Tudo o que você deixou está desmoronado num abismo de culpa. O que você precisa levar está dentro de ti. É só jogar a última pá de terra no passado e plantar uma flor de esperança. Regue com a única gota de lágrima triste que ainda lhe resta e venha viver em paz. A singeleza de seus atos lhe compensará as chagas de teus pés. A esperança na transformação do ser será seu próprio ópio. Não espere a próxima vida para recomeçar. A nova chance. A oportunidade é você quem faz e ela está agora diante de ti. Dê o primeiro passo que o outro pé lhe acompanhará. Venha comigo abrir as portas do infinito. Eu sou a luz que guia para frente a coragem dos fortes. A renovação do ser é seguir e não estar a fitar o que imóvel regride e endurece. Banha de fel e mata o ser. Aquele que nasceu puro, ao olhar para traz, transformado numa estátua de sal, deixou sua alma apodrecer e repelir o amor. Venham! Sigam-me! Tenho um céu cheio de amor a oferecer. Ele está logo ali, atrás da montanha, onde agora brilha, a sete cores, o caminho a seguir. Venham!... Venham!... Venham!...
E assim foi caminhando até sumir da vista.
Fiquei a pensar com meus botões: - Ele estaria louco!...
Escrito por Armando às 20h10
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Amanheceu chovendo.
Até que enfim o dia amanheceu! Amanheceu mas o sol não saiu. Uma chuva fina e constante se joga do céu. Saltam para o imprevisível, como minhas lágrimas que rolaram a noite toda. Se fundem numa mesma poça que aos meus pés, se escorrem para a rua. Rua sem vida, poucos se arriscam a sair para o cotidiano. É domingo. Tudo fechado e sem fantasia. Os olhares desprezadores, nem isso hoje tenho. Só a companhia de meus cães e meu outro. Aquele que insiste em me condenar. Uma dor de cabeça está me matando. A boca seca necessita de um café. Sinto falta das coisas simples que hoje não tenho mais. Renunciei. Um longo banho quente. Café com pão e manteiga. Noticias do dia na tv. Uma obrigação a cumprir. Que tenho agora? Apenas o dia para viver. Viver até quando o coração quiser. Enquanto houver um caminho a ser descoberto. Por enquanto estou parado numa encruzilhada da vida. A refletir sem opinar. A falar sem fazer. A deitar sem dormir. Envolvido no lixo do beco limpei minha vida. Matei o passado. Joguei a chave por debaixo da porta e parti. Sem rumo e sem volta. Sem adeus nem juízo. Aliás, o que aconteceu comigo? A quem estou a prejudicar? Tenho sede, tenho fome e tenho frio. Vivo das sobras e dos trapos. Não tenho nada, mas tenho a liberdade do não consumir e não sei o que fazer. Quem tem coisas se sente dono de tudo e de todos. Tenho o mundo e divido ele com você. Pratico o amor e esparramo flores. Não preciso pedir o que preciso. A providência Divina me sustenta. Só sei o que preciso saber e o resto tanto faz. Feridas abertas irão se cicatrizar. O mal feito irá se reparar. Como a chuva que hoje cai, amanhã vai parar. O sol sempre volta a brilhar e aquecer. Como tudo nesta vida, o passageiro dá seu recado e vai. O frio aumentou. A chuva não para. A fome atormenta. O olho não desgruda da garrafa. Hipnotiza. Atrai. Vicio maldito. Prazer inevitável. Porta para um outro mundo. Só num gole. Uma mente sem juízo. Sem obrigação. Sem aparência. Livre e banal. O que eu sonho ela realiza. Só mais um gole e chega. Tudo está parado. Só a chuva que corre. Estou preso e sem rumo. Ela continua a me olhar. A seduzir. Só mais um gole. E mais um... E mais uns...
Escrito por Armando às 17h49
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Madrugada de Don Quixote
O dia começa, a vida acontece, as pessoas circulam sem se olhar. Em meio ao rebuliço faço parte do cotidiano. Os mesmos lugares, as mesmas pessoas, as mesmas coisas, tudo é igual, todo dia... Mas à noite tudo muda em mim. O silêncio crava suas unhas no meu peito, a ansiedade da solidão aperta meu pescoço e duas gotas de água cristalina escorrem pela cascata de meus olhos. Vem a madrugada com seu manto negro todo furado deixando transpassar gotas de luz do dia que não chega nunca. Na solidão escuto a voz do outro que grita dentro de mim querendo me dominar, querendo ser o dono do meu ser, da minha vontade e do meu saber. Insanamente me agarro na imagem de um corpo feminino que me acompanha na jornada solitária e bebo na vontade de esquecer. Quer seja de dia, quer seja de noite e no pior da madrugada, aquela garrafa de coca média contém toda minha lucidez. Apreciando como se sorve um veneno, busco na morte da noção o esplendor de um paraíso imaginário. Sem pessoas, sem carros, sem coisas, sem lugares; apenas a cachaça enevoando um turbilhão de pensamentos enrustidos num emaranhado de lembranças que não consigo esquecer. Só mesmo o silêncio da noite tem o poder de cobrar de nós, atitudes em que relutamos assumir. Mudar o rumo que um dia escolhemos tomar, mesmo sabendo que era aonde chegaria ao mais próximo do nada. Foi aí que cheguei. Ao nada! Cheguei, olhei e sentei para contemplar o absoluto nada. O vazio das coisas que fiz, das ruas que passei, das coisas que comi, das mulheres que amei. Ah! Essas mulheres! Não troco minha garrafa por elas. Não fico sem elas. Não sei delas. Não me vejo sem elas. O que faço delas? Oh! Noite que não se acaba. Deixe o sol se adiantar, pelo menos hoje. A solidão me sufoca. Alucina-me como quem se entorpece. Se não fosse minha garrafa feminina, não sei o que seria de mim. Sua poção mágica está no fim. Só me restam alguns goles mais. Nesta escuridão vejo a vida passar. Passar bem devagar, como um vídeo - tape em câmara lenta. A consciência me falha. Os movimentos me fogem do controle. Delírio etílico. Lágrimas salgadas. Silêncio assassino. Noite sem fim. Noite sem fim. Eu sem amor...
Escrito por Armando às 16h05
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Don Quixote voltou
Olhem à sua volta! Vejam como a vida é linda! Como tudo é perfeito e belo, a gente é que faz de tudo para melhorar o que já é perfeito e acaba estragando tudo. Você já se perguntou o que faz no mundo? Eu tento viver enganando a morte. Tento ser e fazer feliz o que me restou das sobras e não desisto de viver. Quero mais hormônios e menos coisas. Quero aquilo que estimula, o que ilusiona e o que faz gozar. A Terra com certeza irá sumir daqui a alguns milhões de anos ou daqui a pouco, quem sabe? Difícil é aceitar o simples e dividir o bem; só querem acumular. Pra quê? Arrisque o novo tentando a sorte simples. Parta com toda velocidade pela contramão da vida. Pessoas não deixam pegadas numa estrada que não leva a lugar nenhum. Siga sem olhar para trás e quando se sentir cansado verá que defronte a ti, terás apenas o fim de tarde e um pôr-do-sol para contemplar. Assim como faria “King-Kong” agradeça e procure a mágica escondida neste dia. A graça que lhe foi distribuída para ser usada apenas neste dia se acabou. Amanhã outra virá. A mãe natureza lhe dará seu colo para ninar. Assim como recebo uma graça, de graça outra dou. Minha graça de hoje encontrei numa garrafa. Bebi toda. Amanhã terei mais. Não guardo o que é pra ser usado hoje. O ultimo gole foi dado e a magia se apresenta como as portas do paraíso. Que luz é essa? Que brilho intenso! Ouço anjos tocando; estou voando. Pegaram-me pelas mãos e estão me levando pro céu!
A queda era inevitável, em seu delírio caiu de costas. A eficiência do motorista da ambulância se confirmou e lá se foi “Don Quixote” pro hospital deixando seus cães desorientados e sem tempo.
Escrito por Armando às 22h47
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