ONÇA PINTADA.
Eram vários os indícios que o faziam estar em casa mais cedo naquela tarde. O sol ainda alto denunciava que a lida no campo muitas horas de trabalho árduo ainda teriam de ser empenhadas. Ao contrário, encontrava-se encabrunhado diante da porta.
O bem de maior valor, o troféu conquistado à custa de anos de esforço sob o sol e a aridez da terra, somente para agradar aquela que lhe jurou amor eterno, estava estilhaçado no chão.
Com a chegada da eletricidade naquelas bandas, esquecida do mundo até então, trouxe também a visão de um mundo completamente diferente e deslumbrante daquele em que, por gerações, foram criados.
Um último gole de cachaça desceu pela garganta sem fazer efeito e num gesto quase que automático lançou a garrafa ao chão, misturando seus cacos aos do aparelho que tanta desgraça depositou naquele que um dia foi um santo lar.
Sua vida e de seus filhos haviam em muito melhorado, tanto que eles estavam todos na escola e sua querida esposa não mais precisava acompanhá-lo ao campo. Ficava só cuidando da casa. A casa que hoje estava vazia. Sentado diante da porta da sala aguardava seu derradeiro destino. E ele chegou.
Assim que abriu a porta, um olhar horrorizado saltou ladeado por entre lábios de batom borrado.
- Que qué isso, Zé? Que se assussedeu aqui?
Num salto de onça pintada, sem dar explicação, cravou a peixeira no bucho da mulher. A violência do golpe foi tanta que fez com que ela grudasse na porta. Com uma mão apertava-lhe a garganta sufocando-a, e com a outra, chegava a sustentar o corpo na lâmina.
Ficou ali, inerte, a fitar os olhos aterrorizados da esposa por um longo período. Até que ela parasse de se estrebuchar.
Depositou o corpo sentado na porta. Uma poça de sangue se formou aos seus pés. As últimas gotas de lágrimas pingaram naquele mar vermelho. Limpou a faca na calça e embainhou-a novamente.
- O que ta feito, ta feito! Cabra macho como eu não leva desfeita. Te dei uma vida de rainha, e você quer ser como artista de novela? Chapéu de corno não uso não!
- Vai agora prus quinto-dus-inferno, que é lá que esse povo todo vive...
Escrito por Armando às 13h54
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