Missão cumprida, esforço recompensado.
O cansaço e a dor física do término de um trabalho já se faziam sentir naquele fim de tarde. O cheiro forte de tinta e solvente pairava no ar.
A sensação era de missão cumprida. Resultado bonito e esforço recompensado.
Aí ele chegou. Montava uma bicicleta velha amarela. Perguntou pelo dono. Disse-lhe que era eu. Perguntou meu nome. Disse-lhe e ele confirmou. Um modo de conversar todo estranho. Mistura de vergonha, medo e indecisão, o que me transpareceu, num primeiro instante, alguém que pediria um emprego, mas não era. Quando ele resolveu falar o que queria lembrei-me de quem se tratava. Era o “Buiú”, conhecido bandido da cidade, que desde criança atormentava comerciantes, residências e principalmente “taipes” e toca cds de carro. Várias vezes preso e, como ninguém sabe o porquê, sempre volta às ruas e à vida criminosa.
- Olha! Você não quer ficar com um celular, zerado, na caixa, com nota fiscal?
É que meu irmão está parado na pista, sem gasolina, e a polícia quer levar o carro dele, porque eles falaram que não pode parar na pista sem gasolina, é contra a lei, e querem prender ele.
Pensei na hora: “É fria”! Mentira deslavada. Tentei despachá-lo numa boa.
- Vixi, cara! Celular não me interessa não! Respondi.
- Pô, cara! Preciso de R$ 8,00 para comprar gasolina pro meu irmão. Você não quer ficar com três DVDs? É coisa boa! Te dou os três por R$8,00?
Era tudo que eu precisava ouvir. O quanto aquela conversa ia me custar. Abri a carteira e falei: - Vamos fazer o seguinte: toma R$20,00 e compra a gasolina pro teu irmão. Quando você resolver essa parada, você vem aqui e me devolve, falou?
- Falou, irmão! Valeu mesmo! Não sei se você me conhece, eu sou o “Buiú”. Agora eu já parei com aquelas coisas. To de boa! Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo, falou?
- Te conheço sim, Buiú. Falei. Sem problema, Valeu!
Um largo sorriso no rosto. A sensação de missão cumprida. Resultado bonito e esforço recompensado.
Assim, ele saiu correndo na sua velha bicicleta amarela. A mesma que a poucos instantes estava entre eu e ele. Fiquei a pensar que num próximo encontro nosso, pode ser que entre nós não esteja a bicicleta, e sim uma arma. E na mão dele.
Rogo a Deus que não esteja na minha. Dependendo da situação e do tanto que estou desacreditado ultimamente, o gatilho vai ficar muito sensível...
Felizmente, neste espaço podemos falar o que quisermos, mesmo que seja apenas um desabafo.
Escrito por Armando às 00h47
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